A requalificação, a pesquisa e o acesso à coleção

Christina Gabaglia Penna, historiadora e documentalista, sócia da Hólos Consultoria e Assessoria

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  • Qual a importância do trabalho de identificação, catalogação e digitalização realizado no processo de requalificação? 

 

A catalogação ajuda nas pesquisas de interessados na produção do artista, assim como facilita a seleção feita por curadores para exposições e livros. Ao mesmo tempo, é fundamental que as instituições tenham seus acervos inventariados, porque esse processo protege as obras de falsificações e roubos.

 

No trabalho realizado no Sítio, foi iniciada a catalogação geral da obra de Roberto Burle Marx para que, mais adiante, seja possível produzir o catálogo raisonné.

 

A produção de Roberto Burle Marx está divida em três grandes núcleos: as obras do Sítio; as obras do Instituto Burle Marx, oriundas do Escritório Burle Marx e, finalmente, tudo aquilo que está em coleções públicas e privadas, nacionais e estrangeiras. Estimamos um acervo de 10 mil obras. A catalogação do acervo do Sítio foi o primeiro passo e, em breve, poderemos dar início às demais coleções.

 

  • O que o público poderá ver com a disponibilização do acesso online?

 

O público terá acesso às obras de autoria de Roberto Burle Marx, seus dados técnicos e imagens.

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Desenho feito por Roberto Burle Marx. Cactário da Praça Euclides da Cunha, nanquim sobre papel, 1935.

  • O que é um Catálogo Raisonné e qual a sua importância?

 

Um catálogo raisonné é a publicação de referência que reúne informações sistematizadas, resultante do trabalho de identificação, localização, documentação e autenticação das obras de um artista ou coleção de objetos de qualquer natureza. Se constitui como fonte de consulta relevante para a pesquisa de museus, instituições de patrimônio, instituições culturais (bibliotecas, arquivos), museólogos, historiadores da arte, curadores, pesquisadores, críticos, galeristas, marchands, casas de leilões. Ele é também uma forma de proteção da produção do artista, uma vez que será o resultado de todo um estudo sobre a autenticidade das obras.

 

Um terceiro ponto importante é o fato de que o catálogo raisonné requer um trabalho de localização das obras (ou pelo menos a tentativa de). Lembremos que quase sempre uma obra sai do ateliê do artista e empreende os mais variados percursos.

 

  • De onde vem a ideia de catálogo raisonné?

 

O Catálogo Raisonné, além do trabalho técnico de localizar, catalogar e autenticar a obra completa de um artista, representa a reunião de sua memória e consequentemente sua inserção no universo da história da arte, sendo este o mais importante atributo que se pode dar a um artista.

 

Via de regra, é produzido após um tempo decorrido da morte do artista. Surge para resolver o problema da dispersão de sua obra que o tempo traz, fazendo-a espalhar-se por coleções públicas e privadas, nacionais ou internacionais, devido a vendas, presentes, doações, heranças e comodatos. Durante o processo de produção do catálogo raisonné pode-se identificar, inclusive, obras desaparecidas, das quais existem apenas registros documentais, em fotos, reproduções em artigos de periódicos, livros, filmes, etc.; obras destruídas por incêndios, roubadas, desaparecidas durante guerras, recortadas pelo próprio artista ou por ele alteradas e que são, hoje, apenas pentimentos, que é o nome que se dá a esses vestígio de uma composição anterior.

 

O catálogo raisonné surge para documentar, mas também e sobretudo para autenticar as obras, pois toda essa pesquisa resulta em uma fonte fidedigna do conjunto.

 

A partir do catálogo raisonné é possível difundir a obra de diferentes maneiras, tanto para os especialistas como para o público em geral, que passam a contar com um panorama abrangente e seguro da obra do artista em questão. Mas, para além disso, o catálogo raisonné é fonte para proteção do patrimônio, como proteção de roubo, de lavagem de dinheiro e de falsificações. No Brasil, ainda são escassos os catálogos raisonnés produzidos: apenas onze foram realizados até agora.

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Azulejo pintado por Burle Marx, na cozinha de pedra. Foto: Oscar Liberal

Leia as demais entrevistas com parceiros do Intermuseus no processo de Requalificação:

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