A requalificação e a articulação com as comunidades

Andréa Bueno Buoro, diretora executiva do Intermuseus

  • Por que realizar um estudo de engajamento territorial do Sítio com seu entorno como um dos pilares da requalificação?

 

É parte da missão e razão de ser dos equipamentos e instituições culturais a relação com o seu entorno e território. Elas devem ser, antes de tudo, instituições a serviço da sociedade. Esta perspectiva orientou o projeto de requalificação do Sítio Roberto Burle Marx. O estudo diagnóstico da relação do sítio com moradores da região foi fundamental para compreender o potencial de fazer a diferença na comunidade. Não é possível pensar em um equipamento ou instituição cultural sem considerar o território no qual está inserido e com o qual se relaciona imediatamente.

  • Como um equipamento cultural pode se conectar com a comunidade de seu entorno e com seu território de influência?

 

Um equipamento cultural detém conhecimento e experiências que podem fortalecer a comunidade de seu entorno, seu território físico e simbólico de influência. Ele tem força para catalisar transformações positivas na sociedade. Compreendendo a comunidade e o território físico e simbólico no qual se insere, um equipamento cultural pode criar parcerias com grupos, lideranças, instituições que desenvolvam projetos dentro de seu espaço físico ou a partir dele. Tem, também, uma dimensão educativa, de disseminação de conhecimento que detém em seu espaço e estimula a realização de novas formas de compreender o mundo.

 

  • Quais os desafios enfrentados pelo Sítio para engajar a comunidade de seu entorno?

 

Roberto Burle Marx estabeleceu uma relação muito forte com a comunidade do entorno. Era próximo de seus jardineiros e colaborou para uma geração de profissionais que constituíram hortos a partir de mudas de plantas ornamentais do Sítio ou produzidas para os seus projetos. Essa situação contribuiu para que a área se tornasse um polo de plantas do município.

 

As portas do Sítio estavam abertas à comunidade, tanto do meio artístico da cidade como para os moradores que viviam no entorno. Após a morte de Burle Marx, o Sítio se tornou unidade do Iphan, para preservação e disseminação do conhecimento botânico, artístico e ambiental ali construídos. O Iphan precisou qualificar o sítio como instituição pública, assumindo total responsabilidade pela sua manutenção e preservação. Com isso, naturalmente, se tornou menos permeável a visitas espontâneas da população.

 

A comunidade do entorno é, atualmente, dispersa, composta por pequenos comércios – a maioria deles, informais – e poucos núcleos de moradias. A partir de uma pesquisa, identificou-se que grande parte dos residentes locais sabe da existência do Sítio e tem conhecimento sobre Burle Marx. No entanto, mais da metade nunca visitou o endereço e não o percebe como um espaço do qual possa pertencer. É preciso um movimento proativo de conexão com os vizinhos.

 

O projeto de Requalificação é um passo importante neste sentido, para promover uma abertura maior do Sítio à comunidade, mantendo a responsabilidade que tem sobre sua preservação, mas aberto a demandas de atividades da própria região. Identificar estratégias que possam gerar maior empatia e integração entre o Sítio e sua comunidade de entorno é seu maior desafio.

  • Que diferença o Sítio pode fazer com sua presença no território de Barra de Guaratiba?

 

Barra de Guaratiba é uma região da Zona Oeste do Rio de Janeiro, última fronteira de urbanização da cidade, e vem sofrendo nos últimos anos com a especulação imobiliária para construção de condomínios, o que tem causado desmatamentos e degradação ambiental.

 

O Sítio encontra-se na confluência de três unidades de conservação da cidade e é um ponto importante de preservação, gerando um apelo muito grande neste sentido, podendo, inclusive, ser um aliado relevante às organizações de defesa da preservação ambiental na região.

 

Sob um outro aspecto, é a instituição de referência do legado do artista e paisagista de renome internacional que é Burle Marx, o que também tem o potencial de promover um grande movimento de visitantes e turistas locais, nacionais e internacionais, e gerar um movimento para o comércio local.

Leia as demais entrevistas com parceiros do Intermuseus no processo de Requalificação:

A requalificação museológica
A requalificação arquitetônica
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A pesquisa de engajamento territorial
A requalificação, a pesquisa e o acesso à coleção
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